Vai, meu amigo, isso logo vai passar.
E não é conselho, não é acalanto. É reza boa, presumida!
Aqui quem fala é meu tempo combinado ao martírio diário, o que pode te entender.
E eu digo que vai, vai passar sim, deixando o perfume da saudade no ar e te enxendo os pulmões de um câncer próspero, de febre. Dá pra sentir o sangue quente reclamar o amor vazio que existe só na sua vontade. (É só respirar)
Vontade deita a cabeça no travesseiro das suas insônias, não é? Pena que ela custa a dormir...
Pois eu te asseguro que ela vai embora e você vai sossegar, podendo arfar e aspirar sereno qualquer nova desilusão de gosto pérfido, adstrigente.
..Porque esse câncer, meu amigo,
esse câncer sim, é vida (...)
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
betânia, 252.
Vi uma menina branquela cheia daquelas pintinhas escuras e grandes pela pele, acho bonito.
Ela tem cara de se chamar Joana, e eu não sei porquê, mas esse nome tem um som tão esquisito, parece um nome de porta aberta, de gosto ameno, como o sabor do sorvete de flocos do Luís, da casa ao lado.
Odeio flocos por causa disso! Aquele viado contribuiu para a minha preferência pelos extremos, quente-frio, sol-chuva, muito-pouco. Eu tocava a campainha da casa dele e me escondia atrás daquela kombi velha do vizinho rabujento de cabeça branca. Ele me delatou uma vez e o viado xingou uns nomes ridículos com aquela voz afeminada, e minha avó me disse que eu não tenho jeito não. Vai ver é por isso que eu odeio flocos. Além do que, não tem gosto de nada!
O viado me disse há dez anos que aquela mulher de cara magra era uma "quenga" e que os pêlos de suas partes de baixo são da mesma cor amarela que os seus cabelos, descoloridos com água oxigenada da padaria da esquina. Eu hoje me pergunto como é que ele sabia disso...
Um dia recebi elogios de todos eles e eu era bem novinha e não entendi os motivos de tanta comoção, mas eu catei uma vassoura da cozinha e gastei horas varrendo a rua enlameada. Eu não sei por que fiz isso, sabia que não, aquilo ali não fazia sentido algum e que daqui a pouco já estaria tudo sujo de novo, mas varri por horas e eles me motivavam, talvez sádicos ou mais estúpidos que eu.
Nessa mesma rua asfaltada, caí de pés descalços e os joelhos desprotegidos daquele chão tão quente e queria tanto impressionar que não segurei meu choro, porque doeu de verdade e sangrou um bocadinho e o menino que eu achava bonito me ajudou a levantar. (Dez anos depois e descobri que ele é um frouxo)
A Bilica era muito feia, mas os seios dela estão mais fartos e durinhos que os meus e agora o nome dela é Roseline, ela me trata com desprezo e brinca com o dono daquele bar.
O louco da rua ainda não morreu e o dono da padaria ainda é o mesmo, coitado. Nunca saiu dali.
Hoje em dia vira os olhos para as minhas nádegas e eu acho tudo muito engraçado, ele me olha pela câmera instalada acima do caixa e disfarça com aqueles óculos de armação de homem casado. Sem vergonha!
E eu não sei por que, mas prefiro os tempos da piscininha de mil litros.
Ela tem cara de se chamar Joana, e eu não sei porquê, mas esse nome tem um som tão esquisito, parece um nome de porta aberta, de gosto ameno, como o sabor do sorvete de flocos do Luís, da casa ao lado.
Odeio flocos por causa disso! Aquele viado contribuiu para a minha preferência pelos extremos, quente-frio, sol-chuva, muito-pouco. Eu tocava a campainha da casa dele e me escondia atrás daquela kombi velha do vizinho rabujento de cabeça branca. Ele me delatou uma vez e o viado xingou uns nomes ridículos com aquela voz afeminada, e minha avó me disse que eu não tenho jeito não. Vai ver é por isso que eu odeio flocos. Além do que, não tem gosto de nada!
O viado me disse há dez anos que aquela mulher de cara magra era uma "quenga" e que os pêlos de suas partes de baixo são da mesma cor amarela que os seus cabelos, descoloridos com água oxigenada da padaria da esquina. Eu hoje me pergunto como é que ele sabia disso...
Um dia recebi elogios de todos eles e eu era bem novinha e não entendi os motivos de tanta comoção, mas eu catei uma vassoura da cozinha e gastei horas varrendo a rua enlameada. Eu não sei por que fiz isso, sabia que não, aquilo ali não fazia sentido algum e que daqui a pouco já estaria tudo sujo de novo, mas varri por horas e eles me motivavam, talvez sádicos ou mais estúpidos que eu.
Nessa mesma rua asfaltada, caí de pés descalços e os joelhos desprotegidos daquele chão tão quente e queria tanto impressionar que não segurei meu choro, porque doeu de verdade e sangrou um bocadinho e o menino que eu achava bonito me ajudou a levantar. (Dez anos depois e descobri que ele é um frouxo)
A Bilica era muito feia, mas os seios dela estão mais fartos e durinhos que os meus e agora o nome dela é Roseline, ela me trata com desprezo e brinca com o dono daquele bar.
O louco da rua ainda não morreu e o dono da padaria ainda é o mesmo, coitado. Nunca saiu dali.
Hoje em dia vira os olhos para as minhas nádegas e eu acho tudo muito engraçado, ele me olha pela câmera instalada acima do caixa e disfarça com aqueles óculos de armação de homem casado. Sem vergonha!
E eu não sei por que, mas prefiro os tempos da piscininha de mil litros.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
namoradinho.
"Eu tive um sonho era bonito assim, e eu podia flutuar nos meus balões,
e era tudo colorido e tão macio, que até o chão da minha sala era feito de algodão..."
E eu acordei sorrindo, ultimamente ando sorrindo muito,
e é claro que eu sei o que se passa, oras.
sei principalmente nas horas que ele está do lado,
desbotando a minha cor rubra (como aconteceu com aquele peixe)
presente agora nas ressacas de ternura, de manhã cedo.
Queria mesmo ser daquele jeito doce,
mas sou tão despudorada que minhas maçãs não coram,
e o impulso é vida quando sai da minha garganta qualquer verdade estúpida,
e ele me olhando incrédulo 'é a coisa mais bonitinha que tem'.
Ele não entende de tintas, eu não sei nada de cores,
mas o peixinho é amarelo, o lápis é cinza-claro
e a pele dele com a minha é um contraste que eu adoro ver.
O carinho na nuca me comove e estamos ficando mal acostumados,
com a irresponsabilidade segurando nossas mãos
e ando tão boba que quase acredito quando ele diz que sou tão linda.
A culpa é dele, por essa calmaria que logo vai virar saudade,
essa pieguice estranha e a prolixidade branda me impedindo um desfecho breve,
mas é que todo esse meu riso jamais caberia num papel de halls.
e era tudo colorido e tão macio, que até o chão da minha sala era feito de algodão..."
E eu acordei sorrindo, ultimamente ando sorrindo muito,
e é claro que eu sei o que se passa, oras.
sei principalmente nas horas que ele está do lado,
desbotando a minha cor rubra (como aconteceu com aquele peixe)
presente agora nas ressacas de ternura, de manhã cedo.
Queria mesmo ser daquele jeito doce,
mas sou tão despudorada que minhas maçãs não coram,
e o impulso é vida quando sai da minha garganta qualquer verdade estúpida,
e ele me olhando incrédulo 'é a coisa mais bonitinha que tem'.
Ele não entende de tintas, eu não sei nada de cores,
mas o peixinho é amarelo, o lápis é cinza-claro
e a pele dele com a minha é um contraste que eu adoro ver.
O carinho na nuca me comove e estamos ficando mal acostumados,
com a irresponsabilidade segurando nossas mãos
e ando tão boba que quase acredito quando ele diz que sou tão linda.
A culpa é dele, por essa calmaria que logo vai virar saudade,
essa pieguice estranha e a prolixidade branda me impedindo um desfecho breve,
mas é que todo esse meu riso jamais caberia num papel de halls.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
bege
olho vermelho de flash, maçãs podres de amor
o sangue não pára de pingar
e tudo é ainda vermelho, vermelho
sem foco e morno,
porque meu corpo esfriou de súbito
como acontece com os machos que tem asco,
e eu tesa estagnei intacta
extintor também vermelho, fez da chama fiasco azul.
- Prefiro respirar...
preciso há cinco meses, sete chaves, um ano só
triturar toda a doçura fúnebre que nunca jaz,
que nunca dorme,
torturando-me com agulhas fincadas
nos cantos que mais sinto dor:
olhos queimados, orgulho trêmulo.
a cara amedrontada de vingança
enfiada nas penas do teu travesseiro
sufoca um pouco pra morrer um pouco
mas daí volta brilhando como luz neon
fora de moda e triste
como é a nostalgia que agora eu abracei.
sei que os teus panos cheiram pútridos
dos líquidos da novidade
e não, não use perfumes,
não precisa mais lavar as mãos
porque agora gozo é só um instante quente
(e não é isso que me beija a alma)
capa de toureiro, sangue desse bicho
o céu escureceu e ficou preto sem nuvens
e o câncer sai tossido aos poucos da minha garganta
enquanto toda essa lama ainda continua bege.
(...)
o sangue não pára de pingar
e tudo é ainda vermelho, vermelho
sem foco e morno,
porque meu corpo esfriou de súbito
como acontece com os machos que tem asco,
e eu tesa estagnei intacta
extintor também vermelho, fez da chama fiasco azul.
- Prefiro respirar...
preciso há cinco meses, sete chaves, um ano só
triturar toda a doçura fúnebre que nunca jaz,
que nunca dorme,
torturando-me com agulhas fincadas
nos cantos que mais sinto dor:
olhos queimados, orgulho trêmulo.
a cara amedrontada de vingança
enfiada nas penas do teu travesseiro
sufoca um pouco pra morrer um pouco
mas daí volta brilhando como luz neon
fora de moda e triste
como é a nostalgia que agora eu abracei.
sei que os teus panos cheiram pútridos
dos líquidos da novidade
e não, não use perfumes,
não precisa mais lavar as mãos
porque agora gozo é só um instante quente
(e não é isso que me beija a alma)
capa de toureiro, sangue desse bicho
o céu escureceu e ficou preto sem nuvens
e o câncer sai tossido aos poucos da minha garganta
enquanto toda essa lama ainda continua bege.
(...)
mein mongenstern. (II)
Eu sempre soube que ela gosta de sofrer.
Gene dominante, quase externo, por isso somos ela e eu.
E damos as mãos.
As dela são tão macias de displicente cuidado. Ela não usa cremes caros, quase não trata as unhas nem as colore com esmaltes chamativos, limitando-as a tons sempre parecidíssimos de cintilante mediano e branco. Mãos de quarenta e um anos.
As minhas não são bonitas.
Mastigo as bordas das minhas carnes, tirando as cutículas e sangue,e por conveniência ou ansiedade, quase nunca uso esmaltes pra não ter que me enfeitar.
A destra sempre segura meus apoios e é a que mais se arrisca a cheiros fortes de tabaco e vida. A canhota é limpa e não me serve.
A minha mãe não deveria afagar-me, nem beijar minhas maçãs; Não me sinto digna das suas insônias nem de sua ternura mais enrugada e macia que as minhas mãos estúpidas, de dedos tortos.
(Mas ela gosta de sofrer...)
Os meus olhos estão vermelhos de cansaço e esperança, porque são duas da manhã e eu ainda penso inutilidades calejadas enquanto ela dorme ali tranquila porque eu já cheguei da rua e agora está tudo muito bem.
Gene dominante, quase externo, por isso somos ela e eu.
E damos as mãos.
As dela são tão macias de displicente cuidado. Ela não usa cremes caros, quase não trata as unhas nem as colore com esmaltes chamativos, limitando-as a tons sempre parecidíssimos de cintilante mediano e branco. Mãos de quarenta e um anos.
As minhas não são bonitas.
Mastigo as bordas das minhas carnes, tirando as cutículas e sangue,e por conveniência ou ansiedade, quase nunca uso esmaltes pra não ter que me enfeitar.
A destra sempre segura meus apoios e é a que mais se arrisca a cheiros fortes de tabaco e vida. A canhota é limpa e não me serve.
A minha mãe não deveria afagar-me, nem beijar minhas maçãs; Não me sinto digna das suas insônias nem de sua ternura mais enrugada e macia que as minhas mãos estúpidas, de dedos tortos.
(Mas ela gosta de sofrer...)
Os meus olhos estão vermelhos de cansaço e esperança, porque são duas da manhã e eu ainda penso inutilidades calejadas enquanto ela dorme ali tranquila porque eu já cheguei da rua e agora está tudo muito bem.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
monólogo do papel crepom
Tu devias relevar os meus impulsos, meu amor.
Eu furtiva não funciono. Sempre me dôo mais do que prometo;
Me desgasto e quase te esqueço quando sinto outros cheiros e outras mãos, me perdoando logo em seguida quando percebo que nessas horas é tu que não te lembras de mim.
(A culpa é tua!)
Há meses grito com o espelho do banheiro palavras de boca machucada de frio; Rasgo os meus verbos, meu versos, meus lábios, pra ver se te enxergo de olhos fechados, costurando minhas feridas com um esforço suave, apesar de cálido, como num blues de pesar, de se abraçar às pernas. (As palavras são tuas!)
Os homens tem cheiro de homens, mas eu só penso no teu cheiro de céu, que se acostumou tão bem à minha pele que de vez em quando me acarinha os pontos, passeando equilibrado, como tu fazia antes pelas minhas linhas. (A culpa é tão minha...)
Eu sou tão nova e poderia me criar, mas não quero.
Tu podias tanto relevar...
Já faz um ano que tu moras no meu ego, no meu fôlego, nos meus dedos e poros.
Então vai, troca as cores dos teus lençóis, enxuga as suas mãos bonitas, me toca um verso de uma nota só...
...Dezembro é ainda primavera, meu amor.
Eu furtiva não funciono. Sempre me dôo mais do que prometo;
Me desgasto e quase te esqueço quando sinto outros cheiros e outras mãos, me perdoando logo em seguida quando percebo que nessas horas é tu que não te lembras de mim.
(A culpa é tua!)
Há meses grito com o espelho do banheiro palavras de boca machucada de frio; Rasgo os meus verbos, meu versos, meus lábios, pra ver se te enxergo de olhos fechados, costurando minhas feridas com um esforço suave, apesar de cálido, como num blues de pesar, de se abraçar às pernas. (As palavras são tuas!)
Os homens tem cheiro de homens, mas eu só penso no teu cheiro de céu, que se acostumou tão bem à minha pele que de vez em quando me acarinha os pontos, passeando equilibrado, como tu fazia antes pelas minhas linhas. (A culpa é tão minha...)
Eu sou tão nova e poderia me criar, mas não quero.
Tu podias tanto relevar...
Já faz um ano que tu moras no meu ego, no meu fôlego, nos meus dedos e poros.
Então vai, troca as cores dos teus lençóis, enxuga as suas mãos bonitas, me toca um verso de uma nota só...
...Dezembro é ainda primavera, meu amor.
sábado, 8 de novembro de 2008
saideira (de março)
Sabes o que eu faço com o teu amor?
Pois o dispo com olhares serventes e mal comportados que se espalham,
livram-se do castigo de não te sentir e cansados, acabam por se cerrar.
Sou alheia às tuas cenas sôfregas de bebedeira.
Lembro-me de todo aquele "quase" e de quando pintei-me do medo de nunca mais,
que talvez por isso veio em mãos, em cachos, remoendo-me de rancor.
Achas mesmo que com teus lábios tu beijas minha alma?
Tu tocas apenas o meu corpo hirto!
Já não finjo mais quando deixo-me absorver pelos paradoxos absurdos que separam
o meu corpo do tino. Reajo ao teu hálito quente que comove minha nuca frígida
e ignorante aos teus murmúrios embriagados, e já que teus lábios por hora me satisfazem, consinto, te fitando com frieza e cansaço.
Admiro-me cínica quando pousas em mim tuas palavras de amor que de tão brandas e
tão ingênuas, me anulam e enxem meu peito de gelo e mágoa.
Assisto o teu dormir sereno, a boca entreaberta num riso idiota, satisfeito por morar
tão bem no meu desânimo.
Meus dedos livram-se de mim por essas linhas e parágrafos e quase lamentam
o quanto essa inércia me acalanta. E me corrói.
Pois o dispo com olhares serventes e mal comportados que se espalham,
livram-se do castigo de não te sentir e cansados, acabam por se cerrar.
Sou alheia às tuas cenas sôfregas de bebedeira.
Lembro-me de todo aquele "quase" e de quando pintei-me do medo de nunca mais,
que talvez por isso veio em mãos, em cachos, remoendo-me de rancor.
Achas mesmo que com teus lábios tu beijas minha alma?
Tu tocas apenas o meu corpo hirto!
Já não finjo mais quando deixo-me absorver pelos paradoxos absurdos que separam
o meu corpo do tino. Reajo ao teu hálito quente que comove minha nuca frígida
e ignorante aos teus murmúrios embriagados, e já que teus lábios por hora me satisfazem, consinto, te fitando com frieza e cansaço.
Admiro-me cínica quando pousas em mim tuas palavras de amor que de tão brandas e
tão ingênuas, me anulam e enxem meu peito de gelo e mágoa.
Assisto o teu dormir sereno, a boca entreaberta num riso idiota, satisfeito por morar
tão bem no meu desânimo.
Meus dedos livram-se de mim por essas linhas e parágrafos e quase lamentam
o quanto essa inércia me acalanta. E me corrói.
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