quinta-feira, 31 de julho de 2008

guria.

su
acalanto tal tierno
enfeita as cores que ela enxuga
cor de brilho, céu anil
meu afago
que é lenda
e que é linda
e que me lê
ela nem sabe, mas tem cheiro de mel.

domingo, 27 de julho de 2008

no barro,

eu escuto os teus soluços
ganidos
e assisto esse sismo
pequeno
eu não te protejo.
minhas mãos contornam o seu rosto
de longe
e eu não quero me molhar.
afasto os meus pés
saltito
e tu exalas a angústia da solidão
vazia
tu sujas meu sapato
preto
com gotas de lágrimas que não brilham.
cai, cai, cai.

sábado, 26 de julho de 2008

mata-borrão

dentro de mim existe
o fardo, a massa, o tóxico
que guarda descanso pras tuas mãos
(desde que estejam vazias.)
na fotografia te relembro os olhos
vidrados, inertes, brilhantes
enquanto te beijo o rosto
deslizando as cicatrizes
como um mapa
milimetricamente desenhado
aos meus dedos cálidos
aos meus poros ativos
na erupção do choro,
do riso, do êxtase
na firmeza crua
dessas mãos que não tem fim.

quinta-feira, 27 de março de 2008

o temporal.

Gritos de tempestade invadiam a noite limpa.
O vento frio dançava ríspido pelos seus cabelos, no momento em que mais um relâmpago riscava o céu escuro. Aurora deliciava-se ao contar os segundos antecedentes de uma resposta esbravejante de mais uma trovoada.
Era bonito de se ver tamanho contraste e desordem.
Observava pensativa o barulho da água lavando uniformemente o asfalto cinza e triste. Assistia o escorregar daquilo que parecia um pranto, descendo arrebatador pelas ladeiras vazias até chegar ao ralo.
Ela queria descer as escadas do prédio e lambuzar-se de chuva e riso.
Valsaria nas poças de lama. Deixaria as águas banharem seu rosto claro e invadirem em respingos o seu paladar. Ficaria assim até seus cabelos se encharcarem, suas mãos se engelharem e ela sentisse o gosto da chuva no céu da boca.
Satisfeita, subiria as escadas correndo, molhando os corredores com seus passos largos. Os cabelos negros cairiam alegres sobre a camiseta verde, colada no peito. Secaria os pés com vã cautela no tapete da sala, afim de que sua mãe não descobrisse a travessura e depois deleitaria-se na água quentinha do chuveiro, que tomaria poderoso todo o frio da sua pele.
Queria abraçar-se à toalha seca e assistir ao final da chuva, como se estivesse na platéia de um belo show.
Não o fez.
Sentiu com os dedos as gotinhas redondas que se formaram no vidro da janela. Juntas, escorregara,-se como lágrimas aborrecidas, tão inconformadas como Aurora também estava.
Havia perdido o espetáculo porque tem medo do trovão.

quinta-feira, 13 de março de 2008

ritual.

Recolho toda a tristeza antiga que ainda me resta e me atormenta.
Fito-me com olhos vermelhos que refrescam meu rosto refletido no espelho sujo. Escolho o ângulo em que me sinto mais bela, e tal beleza distrai soluços pausados que se desinxam baixinhos afim de não me condenarem.
Grito desamores mudos por entre versos de edredon. Quero molhar todo o meu corpo de lágrimas e quem sabe assim secar minha alma, mas o pranto foi-se embora saciado. Me alivia.
Abraço minhas pernas e escondo meu rosto nos cabelos curtos, os sempre reféns de meus subterfúgios. Não me acalentam mais, e pouco aquecem minha nuca, acostumada com tais revoluções aflitas.
Visto meus ombros claros de menina-moça que não vi crescer, como se o tempo escorregasse arredio pelos meus dedos tortos, cedendo rastros de memória à minha escrita densa.
Beijo meus lábios refletidos, inchados de pranto e de um vermelho doce. Meus olhos roucos me sussurram o canto da ciranda triste que não danço mais.
Tenho dezoito anos de idade e não caibo mais em mim.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

preliminar.


O teu sim passeia no meu não salgado:
Virou candura.
Tropeça na garganta ávida,
Risca a voz, atropela o pranto
É limiar e paciente, e ensaiado e sorrateiro
Mas repetiu-se tanto
Que logo virou refrão.
Assombrou e embaraçou
Os fios da minha voz gelada
Calejada, que no escuro
Confundiu-se muda em vão.
Agora em mim teu sim espalha
Comove-me por minuto,
Depois pérfido e astuto,
Contradiz-me e condena
Que o positivismo ralo
De tão frágil é fantasia.
Por isso, pro meu destino,
Decido por fim o não.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

quatro e trinta e oito.

Eu escrevo agora, em linhas de dedos volúveis. Escrevo insólita, quase crespa, ciumenta dos meus próprios anseios, já que de ímpeto não me servem mais...
Provenho agora com circunstâncias frívolas, das quais não me dignifico nem me separo, por que são de viés, de revés, de pena.
De mim toda quase toma ósculo latente, abraço semi-dado, carinho nada oculto e por isso fica, já que parte o meu pranto em meio, lábio doutro, choro ambos, tão serventes e tão prontos aos meus dedos de torpor.
Quando passa, finjo que nada e de nada gratifico, já que o sal das minhas lágrimas ainda me saciam. E é nesse momento que vejo o reflexo brusco da menina marcada de azul que ainda lastima a falta de um antes sol que virou nuvem escura, quase chuva-tempestade.
Sabe? É que cansa o quase-amor.
Cansa, quando as palavras massantes compensam as ternuras ocultas e ingênuas, que de tão inocentes deslizam sonoras e se dissipam nos meus gritos surdos.
E a tua ganância pruriginosa ainda me cala, me incomoda, mas retém, por isso fujo entre cobertores e líquidos vorazes, que me submergem de rancor e sono.
E adormeço.