terça-feira, 14 de outubro de 2008

sossega Daniel,

que em algum lugar, tu tens nome de anjo.
Em algum lugar tu lavas teus cabelos caracóis com seda e ouro e não te impregnas do cheiro de fumo.
Tuas unhas são brancas e não te coçam aflição de tristes culpas e tu provéns de boa memória para guardar os nomes de tantas morenas.
Tua vista é sempre limpa e ampla e tu podes tragar tuas dores sem paisagens que te distraiam (inclusive nos domingos que são dias de sol). Tu vais poder soluçar sem se importar de fazê-lo, na companhia de sua cachorra gorda de passos calmos e preocupados (Ela ainda será tua única amiga).
Tu podes ali, habitar de vez aquela lua cheia que te empresta isca, enchendo as têmporas de desperdício enquanto o teu membro pulsando sangue não invade as carnes de marias burras.
Em algum lugar tu descansas manso nos zeros dos teus vinte e tantos, mordendo o vazio no seu travesseiro e tentando chorar um pouco, pra ver se aduba tanta solidão.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

joana rosa

De início, quando olhei-a fixamente no rosto, não vi seu rosto armado em indiferença, nem apenas seu sorriso vermelho de deboche.
Vi beleza num semblante de vinte e poucos anos, contrastando com o inchaço armado nos cantos mais frágeis de seus traços finos.
Teriam-na castigado por ser mulher e ser tão crua?
O desequilíbrio cresce no pranto da indiferença e a necessidade da agressão vem da impotência do toque.
Ele, fora do eixo, a chamara de covarde, confundido sua indiferença com imparcialidade. E ela, invariavelmente, não se impediu de sorrir(Ela, que por ironia, não chora).
Há muito, lastimou desamores, no tempo em que doava-se demais no medo da perda e dos nãos incertos que teimosa, resistia.
As lágrimas foram o primeiro direito que o homem tirou dela.
Logo depois vai o seu dinheiro, daqui a pouco depois levam seu amor. Levam seu tempo e seus encantos(Joana passa...)
Na rua, castiga-se apática, despreocupada em esconder hematomas fundos com óculos de sol.
Com o seu olhar, congelaria os mais feridos orgulhos, no mesmo instante em que repuldiava cínica a compaixão de tantos falsos moralistas.

Ela não chora, mas também não ri.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

guria.

su
acalanto tal tierno
enfeita as cores que ela enxuga
cor de brilho, céu anil
meu afago
que é lenda
e que é linda
e que me lê
ela nem sabe, mas tem cheiro de mel.

domingo, 27 de julho de 2008

no barro,

eu escuto os teus soluços
ganidos
e assisto esse sismo
pequeno
eu não te protejo.
minhas mãos contornam o seu rosto
de longe
e eu não quero me molhar.
afasto os meus pés
saltito
e tu exalas a angústia da solidão
vazia
tu sujas meu sapato
preto
com gotas de lágrimas que não brilham.
cai, cai, cai.

sábado, 26 de julho de 2008

mata-borrão

dentro de mim existe
o fardo, a massa, o tóxico
que guarda descanso pras tuas mãos
(desde que estejam vazias.)
na fotografia te relembro os olhos
vidrados, inertes, brilhantes
enquanto te beijo o rosto
deslizando as cicatrizes
como um mapa
milimetricamente desenhado
aos meus dedos cálidos
aos meus poros ativos
na erupção do choro,
do riso, do êxtase
na firmeza crua
dessas mãos que não tem fim.

quinta-feira, 27 de março de 2008

o temporal.

Gritos de tempestade invadiam a noite limpa.
O vento frio dançava ríspido pelos seus cabelos, no momento em que mais um relâmpago riscava o céu escuro. Aurora deliciava-se ao contar os segundos antecedentes de uma resposta esbravejante de mais uma trovoada.
Era bonito de se ver tamanho contraste e desordem.
Observava pensativa o barulho da água lavando uniformemente o asfalto cinza e triste. Assistia o escorregar daquilo que parecia um pranto, descendo arrebatador pelas ladeiras vazias até chegar ao ralo.
Ela queria descer as escadas do prédio e lambuzar-se de chuva e riso.
Valsaria nas poças de lama. Deixaria as águas banharem seu rosto claro e invadirem em respingos o seu paladar. Ficaria assim até seus cabelos se encharcarem, suas mãos se engelharem e ela sentisse o gosto da chuva no céu da boca.
Satisfeita, subiria as escadas correndo, molhando os corredores com seus passos largos. Os cabelos negros cairiam alegres sobre a camiseta verde, colada no peito. Secaria os pés com vã cautela no tapete da sala, afim de que sua mãe não descobrisse a travessura e depois deleitaria-se na água quentinha do chuveiro, que tomaria poderoso todo o frio da sua pele.
Queria abraçar-se à toalha seca e assistir ao final da chuva, como se estivesse na platéia de um belo show.
Não o fez.
Sentiu com os dedos as gotinhas redondas que se formaram no vidro da janela. Juntas, escorregara,-se como lágrimas aborrecidas, tão inconformadas como Aurora também estava.
Havia perdido o espetáculo porque tem medo do trovão.

quinta-feira, 13 de março de 2008

ritual.

Recolho toda a tristeza antiga que ainda me resta e me atormenta.
Fito-me com olhos vermelhos que refrescam meu rosto refletido no espelho sujo. Escolho o ângulo em que me sinto mais bela, e tal beleza distrai soluços pausados que se desinxam baixinhos afim de não me condenarem.
Grito desamores mudos por entre versos de edredon. Quero molhar todo o meu corpo de lágrimas e quem sabe assim secar minha alma, mas o pranto foi-se embora saciado. Me alivia.
Abraço minhas pernas e escondo meu rosto nos cabelos curtos, os sempre reféns de meus subterfúgios. Não me acalentam mais, e pouco aquecem minha nuca, acostumada com tais revoluções aflitas.
Visto meus ombros claros de menina-moça que não vi crescer, como se o tempo escorregasse arredio pelos meus dedos tortos, cedendo rastros de memória à minha escrita densa.
Beijo meus lábios refletidos, inchados de pranto e de um vermelho doce. Meus olhos roucos me sussurram o canto da ciranda triste que não danço mais.
Tenho dezoito anos de idade e não caibo mais em mim.